Confissões de uma quase adulta


A vida se complica e simplifica de maneiras tão diferentes mas ao mesmo tempo tão iguais que chega a ser engraçado.
Um dia se está chorando por um amor perdido, no dia seguinte rindo pelas coisas que você vê que é capaz de conquistar, e mais um dia passa e tudo aquilo que você conseguiu até hoje parece irrelevante se comparado com aquilo que você deseja mas pensa que é impossível.

Em um mundo onde a tecnologia muda constantemente, em que vivemos com pressa, em meio a desejos passageiros e vontades que por um segundo se tornam tão essenciais que parece impossível viver sem, esquecemos de simplesmente aproveitar o que acontece no momento agora.

Eu gostaria de ser aquelas meninas que não se preocupam com nada, que fazem aquilo que tem vontade sem se preocupar com as consequências de meus atos, sem me preocupar se minhas decisões serão boas ou más num futuro próximo ou longínquo. Gostaria de viver viajando em um mundo de contos e fantasias em que desejar algo fortemente faz tudo acontecer, onde quando eu menos esperar vou acabar em uma situação “presa” a alguém que não suporto e que mais tarde descubro ser o príncipe encantado pelo qual toda menina sempre esperou.

Gostaria de caminhar sem saber para onde vou, sem ter que me preocupar em agradar ou não alguém em ter ou não ter como me sustentar, se terei ou não o que comer, conhecendo tudo e todos sem preconceitos ou medo de que o lugar ou pessoa sejam bons ou maus para mim. Esse mundo de fantasia que toda criança vive e que mesmo que os tempos mudem, as tecnologias e a velocidade imponham suas vontades, mesmo que a sociedade diga quão melhor outros tempos tenham sido, e que as crianças de hoje em dia, não são como nós, a realidade para elas, continua exatamente igual a nossa, mas muito mais rápida e com muito mais possibilidades.

Talvez se por um momento deixássemos de ser os semi-adultos que nos consideramos e voltássemos a ser apenas a criança que fomos contemplaríamos possibilidades inimagináveis, e aprenderíamos a dar o verdadeiro valor as coisas, valores que hoje muitos de nós preferem ignorar, confundindo as prioridades e descartando o que realmente importa achando que isso ou aquilo vai nos fazer realmente felizes e que complicar ao invés de descomplicar torna tudo mais adulto que simplesmente observar e agir, mesmo que o ato de agir seja simplesmente esperar e deixar passar.

Por esse lado, vejo que o mundo não tem problemas, são as pessoas que tem, e quando elas pararem de ver o problema do mundo como do mundo mas sim como delas mesmas, talvez as atitudes egoístas, preconcebidas, hipócritas e mentiras possam ser substituídas por sorrisos, amor, amizades e sentimentos verdadeiros o mundo descubra que na realidade, não existe nenhum problema e que todas as soluções já foram encontradas.

Uma criança não põe a escola na frente de um amigo, coloca o amigo na frente da escola, uma criança não se torna sua amiga porque quer algo de você, faz amizade pensando em quanto podem se divertir juntos, uma criança não esconde quando tem vontade de chorar, não disfarça a curiosidade, não mente quando sabe que vai ser pior quando descobrirem, uma criança não esconde os medos, e os enfrenta diariamente. Todos vivemos dizendo como era bom quando éramos crianças, e eu digo que era bom, porque podíamos ser orginais, podíamos ser o que queríamos, podíamos criar, crescer, mudar, aceitar, descobrir, sem ter o peso do “o que” nas costas, o que os outros vão pensar, o que vai acontecer se eu não fizer isso, o que vai acontecer se eu fizer, o que vão dizer sobre mim, o que eu vou perder ou o que eu vou ganhar. Ela simplesmente age, deixando para pensar nos “o que” quando e se eles vierem.

Hoje não me sinto a pessoa mais corajosa do mundo, não me sinto forte ou querida a ponto de sair por ai gritando aos céus o que penso, hoje vivo pensando em tudo o que fiz ou deixei de fazer por medo. Me sinto uma covarde, ao pensar em todas as possibilidades que deixei de lado, simplesmente porque tive medo, e medo inclusive de admitir que foi por medo que deixei ela passar. Me sinto ridícula ao pensar que já espero que as pessoas só se aproximam de mim porque tem algo que querem, e que eu por medo de me magoar acabo afastando-as antes mesmo de deixa-las se aproximar.
Por essas e outras, hoje o que eu mais queria, era abrir os olhos e me descobrir sendo a criança aventureira que criava mundos coloridos, com dragões, magos, fadas e príncipes, que permitia e sempre achava um papel para todo mundo na brincadeira.

Queria ser aquela criança que não tinha medo de ousar pensando no que os outros iam falar. E apesar de ter melhorado muito nesse aspecto desde a última vez que desejei isso, ainda falta muito para que aquela menina volte a se impor ao mundo e me permita ser aquela que eu as vezes acho que sou mas que as vezes me descubro longe de ser.

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